09/10/2005 "O Jogo"
Serviços mínimos

A equipa nacional conseguiu o objectivo de não deixar para o último jogo o apuramento para o Mundial do próximo ano. Mas sofreu bastante, por culpa própria, perante um Liechtenstein que das poucos vezes que foi à baliza de Ricardo conseguiu fazer gelar as bancadas

RUI GOMES


Estava tudo preparado para uma grande noite para a Selecção Nacional. O público, vibrante, encheu as bancadas do Municipal de Aveiro, o adversário - apesar do empate no jogo no Liechtenstein - não parecia ter grandes argumentos para evitar a vitória nacional. O passaporte para o campeonato do Mundo do próximo ano parecia que não iria encontrar grandes entraves burocráticos. Porém, não foi assim. E, certamente, muitos dos adeptos se lembraram ao longo dos 90 minutos, ou pelo menos em grande parte deles, das palavras de Scolari, quando disse que só queria um pontinho.

Os seus pupilos acabaram por lhe dar três, mas a vida esteve muito complicada para a selecção nacional. E, curiosamente, não foram os forasteiros que criaram os problemas, mas sim a equipa nacional que fez questão de complicar aquilo que parecia fácil. Primeiro deram ao Liechtenstein um golo de vantagem num erro infantil de Ricardo - Paulo Ferreira também contribuiu -, depois mostraram uma ineficácia notória em termos ofensivos (até uma grande penalidade desperdiçaram), complementada com uma exibição nervosa, pouco esclarecida, em que faltou velocidade e capacidade de explicar ao adversário a razão do excelente Europeu e de uma carreira, nesta fase de qualificação, sem conhecer o travo amargo da derrota.

O que estava em causa era o apuramento e Portugal conseguiu-o antes do último jogo, evitando aquela que parece ser a sina portuguesa - não só no futebol - de resolver tudo à última hora. Conseguiu-o vencendo, evitou a vergonha de ser apurada para o Mundial do próximo ano sem conseguir ganhar ao Liechtenstein, mas fica a dever aos adeptos uma grande exibição, uma partida de arregalar os olhos. E essa dívida terá de ser paga na próxima quarta-feira, contra a Letónia, num encontro em que já tudo está decidido e não haverá nervos que possam justificar o que quer que seja.

Tal como era previsto, e dado não poder contar com Deco, Scolari optou por colocar Figo atrás de Pauleta, enquanto Simão e Cristiano Ronaldo exploravam as faixas laterais. O jogador do Manchester trocou várias vezes com o seu companheiro que actua no Inter, surgindo igualmente muitas vezes na esquerda, mas as suas investidas, especialmente os seus cruzamentos, raramente tiveram a continuidade que deviam. Os médios mais recuados - Petit e Maniche - pecaram por estar, muitas vezes, longe da área contrária, não aproveitando as bolas rechaçadas pela defesa adversária.

A disposição do Liechtenstein não se pode dizer que tenha sido ultra defensiva. Os forasteiros, estendidos num 4-2-3-1, não esconderam que o contra-ataque era a sua opção, mesmo que ameaçados pelas oportunidades que Portugal foi criando e desperdiçando.
 

Aveiro gelou subitamente


Os pupilos de Martin Andermatt não contavam é que a sua estratégia, que raramente revelou qualquer perigo para a baliza portuguesa, ia ter uma ajuda do adversário. Ricardo saiu a destempo da baliza, Paulo Ferreira "esqueceu-se" de cabecear a bola e Fisher só teve que aproveitar tamanha oferta.

Um momento que gelou Aveiro e que imediatamente colocou toda a gente a fazer contas de que o apuramento iria ser discutido no último jogo, apesar de ainda faltar cerca de uma hora para o jogo terminar. A falta de profundidade do futebol praticado pela equipa nacional, a que se juntava uma enorme incapacidade na hora de alvejar a baliza à guarda de Jehle, ganharam proporções gigantescas e ajudaram esse pensamento. O árbitro decidiu deixar a sua marca quando não assinalou uma grande penalidade, após uma grande defesa com as mão, na linha de golo, do central D'Elia.

Portugal regressou do intervalo com as mesmas boas intenções que tinha revelado na primeira parte, só que muito mais eficaz. Na primeira vez que foi à baliza adversária conseguiu o empate. O golo poderia ter sido um bom tónico para esmagar o adversário, mas a verdade é que Portugal continuou a revelar-se muito perdulário e sem grande imaginação. Figo, que até foi um dos melhores em campo, falhou uma grande penalidade e apesar de dominar, Portugal não parecia fadado para muitos mais altos voos. Aliás, de cada vez que a bola ia à baliza lusa, Ricardo mostrava uma enorme intranquilidade, que os assobios com que era brindado em nada ajudavam a debelar. Foi assim que o Liechtenstein quase esteve a fazer o seu segundo golo - Buchel fez o favor de se colocar à frente da bola quando esta seguia que nem um tiro para dentro da baliza portuguesa -, curiosamente numa altura em que Portugal estava mais equilibrado e fluente, mercê das entradas de Hugo Viana e Tiago.

O melhor estava guardado para os últimos cinco minutos. Nuno Gomes entrou, um minuto depois fez o golo da vitória na sua 50ª internacionalização, e os portugueses respiraram de alívio. Naturalmente sem esquecer que contra a Letónia a equipa lusa vai ter que dar espectáculo. Ontem, importante era amealhar os pontos para garantir a presença na Alemanha.

Estádio Municipal de Aveiro | relvado: bom estado | espectadores: 30 000 | árbitro: Grzegorz Gilewski, Polónia | assistentes: Maciej Wiorzbbowsski, Slawomir Stempnieski | 4º árbitro: Tomasz Mikulski
 

Portugal 2 - Liechtenstein 1


GOLOS [0-1] Fisher 33', [1-1] Pauleta 49', [2-1] Nuno Gomes 85'

1 Ricardo GR
2 Paulo Ferreira LD
16 Ricardo Carvalho DC
4 Jorge Andrade DC
14 Nuno Valente LE
8 Petit MD
18 Maniche MD 71'
7 Figo MO
17 Cristiano Ronaldo AD 84'
9 Pauleta AV
11 Simão AE 74'
Luiz Felipe Scolari
12 Quim GR
13 Miguel LD
15 Caneira LE
19 Tiago MD 71'
30 Hugo Viana MO 74'
28 Boa Morte AE
21 Nuno Gomes AV 84'

Amarelos 20' Nuno Valente, 29' Cristiano Ronaldo, xx' Xxxx Xxxxxx, xx' Xxxx Xxxxxxx

1 Jehle GR
2 Telser LD
4 Hasler DC
5 D'Elia DC
3 Michael Stocklasa LE
6 Martin Stocklasa MD
8 Ronny Buchel MD
7 Thomas Beck AD 87'
11 Burgmeier AE
10 Mario Frick AV 52'
9 Fischer AV 56'
Martin Andermatt
12 Steuble GR
13 Claudio Alabor DC
18 Vogt MD
17 Roger Beck MO 56'
15 Martin Buchel MO
14 Rohrer AD 52'
16 Daniel Frick AV 87'

Amarelos 12' Michael Stocklasa, 29' Mario Frick, 56' Burgmeier