29/06/2006 "A Bola" (online)
Nós somos Portugal!

Primeiro, partiram de um lema: Nós somos Portugal! Não era um lema ao acaso, era um grito de afirmação, um chamamento ao país pequeno e ocidental: «Eh, gente, nós também somos portugueses, embora esquecidos, e estamos aqui.» Depois, passou a ser um mote em que todos se reviam. Uma vontade súbita de mais unir, de estar junto e de apoiar a Selecção.

Muitos não têm dinheiro para os preços da FIFA, outros dizem que não podem ir ver um jogo que acaba tarde, a seiscentos quilómetros, para começar de madrugada o trabalho do dia seguinte. Mas não é por isso que se interessam menos. Pelo contrário, interessam-se mais.
Aqui, a Selecção pouco ou nada se discute. Gostam do Scolari, adoram o Figo e acham fantástico que os seus filhos, que julgavam já tão germanófilos, apareçam em casa com vontade de comprar uma camisola portuguesa do Cristiano Ronaldo.

Que raio de Governo pode achar o ensino da língua uma despesa?

Os filhos. Eis a maior preocupação dos emigrantes portugueses. Aquela maneira sem jeito de os fazer regressar às origens. Que origens? Muitos deles nascem e crescem aqui, falam alemão na escola e aprendem a viver como verdadeiros alemães.
«Se ao menos o Governo nos ligasse alguma coisa e não deixasse cair o ensino da língua portuguesa...», dizem-me. O oficial problema, é a crise. O Estado é pobre e a Nação põe os anéis no prego. «Não podemos arcar com tanta despesa», sugere-se nas comunicações oficiais de embaixadores do regime da pobre República. Mas o ensino da língua é uma despesa? Mas que raio de Governo pode pensar que o ensino da língua do seu país deve esperar por dias de prosperidade, quando jorrar petróleo nas bancadas de S. Bento?
A verdade é que se perde o conhecimento da língua, definham os laços da tradição da cultura, mesmo da cultura plebeia, e sobra-nos, para vergonha dos nossos grandes pensadores, o futebol, a Selecção Nacional, que por ter tido o sucesso de quatro joguinhos ganhos, mereceu a atenção da comunidade, juntou, de novo, filhos aos pais, e todos, por junto, celebram nas cerca de 220 associações portuguesas, que existem na Alemanha, já contando com os ranchos folclóricos, os golos do Pauleta, do Maniche, do Figo, do Ronaldo e, de repente, agitam-se as bandeiras e canta-se o hino, e sofre-se, e vibra-se, e, enfim, vive-se Portugal.

Se Portugal ganha sobem as exportações

«Até para o negócio é bom», garantem-me, em redor da satisfação anunciada desta boa presença da Selecção portuguesa. Portugal torna-se, enfim, notado, explicam-me. «Acha que os alemães, aqui, falam de Portugal, se não for das vitórias do nosso futebol? Só se for ainda nalguma desgraça, caso contrário, eles sabem lá onde é Portugal?», queixam-se. Para os alemães — é o que me dizem — Portugal nem existe no mapa das notícias. Primeiro, porque os telejornais são, como devem ser, curtos; depois, porque Portugal é mediaticamente desinteressante. Alguns compreendem esse desinteresse. «Nós não riscamos nada no mapa mundo», admitem. O que não aceitam, e por isso lhes dão enorme gozo as vitórias da Selecção, é que digam que o Figo é espanhol: «Vejam lá, só porque jogou no Barcelona e no Real Madrid... agora é que o vêem com a camisola da nossa Selecção e dizem, olhem, afinal o Figo é português...»
Percebo o alcance, admito que custa ouvir dizer que o Figo, sempre tão nosso, que é espanhol, mas ainda pergunto melhor essa coisa do negócio. O futebol português melhora o negócio dos portugueses na Alemanha?
Que não é isso. Melhora-o, em Portugal. E a dedução é esta: «Não tenha dúvidas, quando se fala bem de Portugal, o que já viu que é raro, aumentam as exportações de produtos portugueses para a Alemanha e há mais alemães que deixam de ir para Espanha no Verão e vão para as praias de Portugal. Está nas estatísticas.»
Acham que não me convence assim facilmente e atiram-me números comprovativos em duas situações: No Euro-2004 («aí, até os alemães tiveram de dizer bem de nós») e, já antes, na Expo-98 («esse acontecimento também nos deu muito orgulho»).
Pois que seja. E nós que bem precisados estamos de equilibrar a balança.