27/06/2006  "A Bola" (online)
Scolari indignado com os holandeses

A arbitragem de Valentin Ivanov, mas também algumas afirmações de Van Basten, treinador da Holanda, fizeram chegar a mostarda ao nariz de Luiz Felipe Scolari. O seleccionador disparou, o alvo principal estava bem definido, mas deixou bem claro que a equipa que orienta não pode estar a ser vítima daquilo que se passou no Mundial-2002.

Luiz Felipe Scolari empunhou o comprovativo de «fair play» assinado por toda a gente antes do início do MundialManhã cinzenta e chuvosa em Marienfeld, nitidamente a contrastar com os dois dias muito quentes de Nuremberga. Antes da hora prevista para o início do treino de recuperação, é evidente a movimentação junto da zona de acesso ao relvado. Luiz Felipe Scolari, percebe-se, mantém conversa acalorada com jogadores e elementos do staff. O que é que tanto irritaria o responsável? Minutos depois, os jornalistas ficaram a saber:
— Venho aqui falar convosco para colocar algumas situações a respeito de tudo o que aconteceu no jogo com a Holanda. Entendemos que em determinados momentos cometemos alguns erros no aspecto disciplinar, mas não aceitamos a expulsão do Deco. Se a FIFA nos pede para que todos—comissão técnica, atletas e staff—assinem o documento relacionado com o fair play é-nos impossível aceitar o que se passou. Entendemos, até pelas palavras do senhor Blatter [presidente da FIFA], a quem agradecemos o gesto, que este é um bom momento para a FIFA fazer prevalecer o fair play.
Apontando à expulsão de Deco, Scolari prosseguiu:
— Foi expulso num segundo lance, quando no primeiro o atleta da Holanda devia colocar a bola para fora, porque era nossa, mas instigado pelo seu técnico prosseguiu a jogada. Se existe um documento relacionado com o fair play, é o momento de a FIFA pensar nesse lance. Dizer que foi um jogo forte e violento, não aceito. Foi apenas um jogo disputado por duas equipas que queriam vencer. Foram exercidas pressões, esse é um assunto que não me compete a mim analisar, mas sim à parte directiva, e penso que a FPF, baseada neste documento, podia endereçar à FIFA uma solicitação para que fosse tirado o cartão vermelho e somente contasse o amarelo pelo segundo lance, mas também ele originado por uma falta sobre o Deco, que foi empurrado.

Recados a Van Basten

No mesmo registo, Scolari não se deteve:
— Depois da minha conferência de imprensa falou o seleccionador holandês, declarando que veio para jogar futebol e não para fazer teatro. Esquece-se que Van der Saar saiu da baliza para pisar o Simão, perante o olhar espantado do árbitro. Esquece-se também que aos dois minutos Cristiano Ronaldo foi derrubado e que aos seis sofreu outra falta. Até parecia uma coisa ensaiada, pois a partir dos 20 minutos não pudemos contar mais com ele. Então, quem é que fez teatro ou antijogo? Se não temos força política para poder agir dentro da FIFA, pelo menos temos de mostrar os documentos que assinamos e aceitamos. Se alguém não os respeitou foram os holandeses. Nós não fizemos o teatro que o treinador da Holanda disse.
Por fim, uma questão para reflexão e... o Mundial-2002.
— Nestes anos como técnico de Portugal, foi a primeira vez que tivemos jogadores expulsos. É bom que se analise se jogámos de forma maldosa, teatral ou se o jogo foi originado por questões de arbitragem que levaram a esta situação de termos apanhado tantos amarelos. Portugal tem um histórico de 2002 e essa realidade é mostrada a todo o momento. O histórico bom dos anos que se seguiram até agora nunca é mostrado. Se nestes três anos e meio nunca tivemos um cartão vermelho, porque é que estão sempre a mostrar o que se passou em 2002, num lance fortuito? Por que é que aos árbitros só são mostradas as imagens ruins de Portugal? Portugal não tem imagem ruim! Em todo o Mundo há problemas de arbitragem, mas em Portugal só falamos mal dos nossos árbitros. Porém, esse é um problema de todos os lados. O que se pretende passar é que nós não somos uma equipa correcta. Mas ninguém vai conseguir desestabilizar a equipa!