02/07/2006 "A Bola" (online)
De novo na História!

Scolari tem razão quando diz que esta Selecção Nacional aprendeu a fazer história. De facto, e para sermos exactos, é, desde já, a melhor geração de sempre do futebol português. Os magriços, esses, que me desculpem, serão, sempre, inesquecíveis e nunca da história do futebol português (ia a dizer de Portugal) sairão. Foram os primeiros a chegar a uma meia-final de um Campeonato do Mundo e deslumbraram com o seu futebol de ataque, e com um Eusébio que o mundo aprendeu a admirar e a consagrar como um dos melhores jogadores de sempre. Agora, é diferente. Portugal tem excelentes jogadores, mas esta equipa não depende tanto de um só. É, também como diz Scolari, uma equipa que aprendeu a ser guerreira, e que já é capaz de não se sentir inibida nos grandes palcos e perante as maiores equipas do mundo.

Depois de ter estado na final do Campeonato da Europa, esta equipa chega, agora, às meias-finais do Mundial. Poderá ir até Berlim, poderá, até quem sabe, ser campeã do mundo, algo que seria, à partida, de todo excluído, até pelos mais optimistas, mas já ninguém lhe tira um currículo que, em Portugal, nem os magriços tiveram.

Os heróis do País pequeno

Portugal está, pois, entre os quatro melhores do mundo e é legítimo que esse mesmo mundo se interrogue sobre o que faz entre os quatro melhores, esse País pequenino e ocidental, a que os maiores e os mais fortes costumam dedicar a indiferença própria dos grandes. É um mistério. Tanto mais que os companheiros de elite são potências além do futebol. Portugal não. O seu futebol é de uma dimensão do sonho e não da realidade portuguesa. E tem um jeito especial para surpreender o mundo e obrigá-lo a olhar para a terra menor que a imensa Espanha empurra contra o mar. Além de um mistério será, também, um fenómeno interessante de se estudar. Tanto mais que há mérito indiscutível neste sucesso que, recorde-se, vem de 2002. Scolari não perde há doze jogos e logo o único jogo que empatou, o único jogo que Portugal empatou em toda a sua participação em Campeonatos do Mundo, é um empate que sabe a uma das maiores vitórias de sempre e que nos coloca nas meias-finais do Campeonato do Mundo de 2006.

A última vingança de Scolari?

Poucas horas depois de ter terminado o jogo de Portugal, confirmava-se esse incontornável fenómeno da continentalidade. A França vencia o Brasil e, nas meias-finais, apenas lugar para as equipas da Europa. Mesmo assim, continuamos a ser nós e... três campeões do Mundo. A França será, pois, o adversário de Portugal na próxima quarta-feira, em Munique, e Scolari terá a sua grande oportunidade, como brasileiro, de se vingar dos franceses, que deixaram o Brasil inteiro em destroços emocionais. Não se sabe se Portugal foi ou não bafejado na sorte da escolha do adversário. Os franceses começaram por estar quase fora do Mundial, eram a chacota dos ingleses e, afinal, a Inglaterra já foi andando para casa e os franceses discutem com Portugal o acesso à final de Berlim. A França tem a vantagem de não ter tido o desgaste do prolongamento e do intenso calor da tarde de Gelsenkirchen e é claramente uma selecção perigosíssima porque, talvez, a única ainda em ascensão. Todas as outras vão entrando em declínio mal disfarçado. A Alemanha sofreu para passar, Portugal foi o que se viu, a Itália nem tanto e surge como a senhora do jogo inteligente e maduro, mas a França está nas nuvens e pode tornar-se, neste momento, o adversário que ninguém quereria. Mas já que tem de ser, é impossível deixar de continuar a acreditar neste Portugal de Scolari. Esta Selecção, por tudo o que fez, só pode, mesmo, merecer até ao fim a confiança dos portugueses.