01/07/2006 "A Bola" (online)
Acreditem nestes jogadores
Sóbrio e eficiente. Assim se resume a atitude de Scolari na conferência de imprensa de antevisão ao jogo de hoje. O seleccionador não entrou em polémicas, dizendo apenas que Portugal deseja ganhar o jogo dentro das quatro linhas. Um discurso... very british.

«Só pensamos na Inglaterra e o Brasil só deve pensar na França. Não há conversa sobre possíveis adversários»Luiz Felipe Scolari não está nervoso. Habituado a grandes jogos, o responsável técnico da Selecção passa uma mensagem de grande confiança, apesar de reiterar que nada mais pode ser exigido aos jogadores. Passar às meias-finais é o sonho que move o grupo e a nação. Todos acreditamos que é possível!
— O que disse de diferente aos jogadores na preparação deste jogo?
— Tenho falado sobre as características dos jogadores ingleses e sobre a sua forma de jogar. Converso com eles sobre a forma como podemos neutralizar o elemento A, B ou C, sabendo que a Inglaterra é diferente da Holanda, no estilo e na táctica. Estamos mais confiantes, mais alegres e mais dispostos, porque passámos a etapa que tínhamos em mente, que era ficar entre os oito.
— Teve boas experiências na Taça dos Libertadores. Transmitiu-lhes o espírito desses jogos?
— Uso exemplos do que já vivi mas eles são jogadores europeus e não conhecem a Libertadores. É difícil descrever o ambiente no la bombonera com lotação esgotada. Tenho três anos e meio de experiência na Europa e troco muitas informações com os atletas.

Ganhar ou perder dentro do campo

— Como analisa a pressão provocada por alguns jornais ingleses nos últimos dias?
— É normal. Cada um faz o seu trabalho e procura atingir os seus objectivos. Os atletas portugueses querem apenas jogar futebol com a Inglaterra e todos devemos estar felizes por isso, porque as duas equipas estão entre as oito melhores do Mundo. Respeitamos o adversário e sabemos que vai ser um bom jogo, porque os ingleses têm fãs entusiastas, participativos, que tornam o futebol mais atraente. Vamos procurar encerrar esse assunto, como por exemplo passar a imagem que Portugal é uma equipa violenta. Queremos ganhar ou perder dentro do campo.
— Portugal vai jogar com o orgulho ferido?
— Não quero encarar o jogo dessa forma nem levar as coisas para esse terreno. Algumas questões são colocadas no papel por quem tem interesses. Queremos que exista um bom jogo de futebol, dentro daquilo que Eriksson falou, com amizade e carinho. Vai ser um grande jogo com grande ambiente.

Fantasma não...

— Considera-se um fantasma para os ingleses?
— Tenho feito o meu trabalho. Com o Brasil, em 2002, ganhámos com o que chamo de golo espírita do Ronaldinho Gaúcho mas estivemos em desvantagem, enquanto com Portugal, em 2004, houve um empate e só vencemos porque fomos melhores a marcar penalties.
— A Inglaterra é mais forte que a Holanda?
— A última derrota da Inglaterra foi há muito tempo. A equipa melhorou bastante e tem jogadores de muita qualidade. Eriksson está a fazer um bom trabalho. Confronto de estilos? Espero um jogo quente, disputado, forte e vibrante, dentro do espírito português e inglês.
— Beckham, Rooney e Crouch são os principais problemas para Portugal?
— São três dos 10 ou 11 que a Inglaterra possui. Estudámos bastante as situações de jogo, vimos vídeos, mas às vezes perde-se num improviso, num lançamento mal feito, numa bola mal chutada. Mas o principal está trabalhado.

«Não posso exigir mais»

— Os jogadores portugueses estão a sentir o peso deste momento?
— Sabemos que este é um dos jogos mais importantes. Eles estão a viver isso. Querem chegar entre os quatro mas não posso exigir-lhes mais do que eles estão a fazer. O que podia cobrar era chegar entre os oito primeiros. Se não conseguirmos vencer é porque a Inglaterra foi melhor.
— Desresponsabilizar o grupo não pode ser perigoso?
— Trabalho com projectos e dentro daquilo que eu imagino poder cobrar aos atletas. Em 2002, com o Brasil, disse que se ficasse entre os quatro primeiros ficaria feliz e nunca me preocupei com o que diziam os brasileiros.
— Se passar pode reencontrar o Brasil.
— Só pensamos na Inglaterra e o Brasil só deve pensar na França. Não há conversa sobre possíveis adversários. Este é o jogo mais importante.
— Que mensagem deixa aos portugueses?
— Acreditem nestes atletas, confiem neles, porque fazem sempre o melhor. Neste jogo vamos estar com espírito vencedor. Nos momentos mais difíceis, vendo televisão ou ouvindo rádio, tenham pensamento positivo. Só assim daremos o passo que queremos.
— Se Portugal vencer, será uma das vitórias mais importantes da sua carreira?
— Se passarmos a Inglaterra, colocaria esse feito como um dos três maiores da minha carreira. Vou incentivar os jogadores, dar-lhes confiança e acreditar neles.

Sim... ou não

Cristiano Ronaldo é a principal preocupação de Scolari para este jogo. O técnico não abriu o jogo na conferência de imprensa: «Neste momento pode ou não pode jogar. Não sei o que vai acontecer. Pelo que tenho visto da sua recuperação, acredito que possa jogar; mas também tenho visto algo nesse aspecto que pode fazer com que não jogue.» Os ingleses insistiram na matéria mas Scolari continuou evasivo. «Vamos esperar», disse apenas, desvalorizando, depois, as ausências de Costinha e Deco: «São dois jogadores de um grupo forte. São especiais mas quem jogar nos seus lugares também é especial. Confio plenamente em todos.»