03/07/2006 "A Bola" (online)
Figo disse-me que defendia dois

Ricardo foi o homem do dia no local de concentração da Selecção Nacional. O guarda-redes foi felicitado por muitos adeptos que se concentravam à entrada do hotel. Por momentos, Figo e Cristiano Ronaldo foram relegados para segundo plano. O guarda-redes estava feliz com mais uma demonstração de carinho. Falou aos jornalistas para distribuir elogios a quem sempre acreditou nele e para deixar mais uma mensagem de confiança aos portugueses. 

Com Ricardo na sala de Imprensa, Portugal está em boas mãos. O guarda-redes é dos mais espontâneos a falar, encarando todos os assuntos com coragem, como se de uma grande penalidade se tratasse. Ontem, voltou a defender muitíssimo bem.

— Certamente, recebeu muitas mensagens. Quer destacar alguma? 
— As mensagens não me surpreenderam, mas as únicas que leio são das pessoas que também encheram o meu telemóvel com mensagens quando passei por momentos menos bons. As outras apago. Todos aprendemos muita coisa na vida. Nunca desejei mal a ninguém, mas prefiro seguir a minha vida com aqueles que estão comigo nas horas difíceis.

A baliza a encolher... 

— Nos penalties, há sempre algo mais que felicidade. O que sentiu naquela altura? 
— Há sempre um pouco de felicidade, mas também há trabalho diário. Os guarda-redes aplicam-se para conseguir que quem marca não nos engane. Felizmente, temos aperfeiçoado o truque e deu resultados. Estamos todos de parabéns, incluindo o Paulo e o Quim, mas também o Brassard, que nos tem ajudado muito. É um treinador jovem, mas tem sido espectacular. Também devo agradecer aos técnicos que tive na carreira. Graças a Deus defendi três penalties, porque falhámos dois e assim não é fácil ganhar. A vantagem é sempre de quem marca.
— Desta vez não tirou as luvas...
— Essa situação foi instintiva, porque não estava a conseguir defender os penalties e tinha de fazer alguma coisa. Neste jogo não foi preciso fazer nada, porque estava a defendê-los. Não podemos comparar as duas situações. Desta vez, e até comentei com Paulo Santos, via nos olhos dos ingleses que eles não estavam bem para marcar penalties. Para eles, a baliza estava a encolher e cabia-me prolongar esse sofrimento. Consegui e foi bom para nós. 
— Preparou-se bem para os penalties? 
— Conhecemos um pouco de todos os jogadores, mas por muitos vídeos ou jogos que vejamos aquele é um momento especial. Acontece o mesmo nos treinos, porque conheço bem os meus companheiros e penso que sei para onde eles marcam. Mas há sempre a ideia de que podem rematar para o outro lado. É muito difícil. 
— O que lhe disse Scolari depois dos 120 minutos? 
— Foi praticamente a mesma conversa do Europeu. Naquele momento há que fazer a lista de quem vai bater os penalties. O mister já sabia que, se houvesse vaga, eu estava à vontade para marcar. Seguimos a mesma ordem e eu era o sexto a marcar. Felizmente não foi preciso, porque ganhámos antes. Quanto ao mister, tudo o que ele nos diz é para nos engrandecer, para aumentar a nossa autoconfiança e os nossos conhecimentos. Temos falado tantas vezes e tão bem dele que, qualquer dia, tem de andar de babe-te. 

Pequenino, desesperado, de cachecol nacional 

— Nos penalties, manteve-se atrás da linha, totalmente sereno. Era a sua arma? 
— Há quem utilize técnicas para tentar desconcentrar o atleta que vai marcar, mas eu acho que devo preocupar-me comigo e com quem marca, tentando ler nos olhos de quem vai bater o que ele tenciona fazer. A minha intenção é enganar o adversário e naquele momento senti que tinha muitas condições para tentar apanhar um ou dois remates. Aliás, Figo disse-me que estava tranquilo, porque tinha a certeza de que eu defendia dois. Assim, foram dois para ele e um para mim. 
— Também ficou de costas voltadas enquanto os companheiros rematavam. É um ritual? 
— Podemos chamar superstição, mas foi das poucas coisas que fiz como no Euro e correu bem. Virei-me de costas para ver a expressão de um português que descobri naquele lado, no meio de tantos ingleses. Era um português pequenino, de cachecol no ar, desesperado. Bastava-me ver se ria ou se chorava.